A exposição Fabulações Matriciais apresenta um conjunto de esculturas em madeira e xilogravuras, articulando reflexões que têm como ponto de partida as obras de Mudinho da Rasa, que integram o acervo do Sesc RJ. A madeira, enquanto elemento central dessas criações, é compreendida aqui como matriz — uma base fundamental que permeia e sustenta diversas expressões artísticas na história da arte brasileira.
Esse conceito se expande para as xilogravuras da Coleção Arte Sesc, que destacam o papel estruturante da madeira como suporte e símbolo. O diálogo com a tradição da xilogravura se aprofunda ao trazer obras oriundas das oficinas gráficas da Lira Nordestina, em Juazeiro do Norte (CE) — marco histórico na impressão de cordéis nordestinos. Essas peças nos conduzem por caminhos fabulares e nos conectam a narrativas como o Romance do Pavão Misterioso, tema recorrente no imaginário popular brasileiro, que também encontra ecos na arte contemporânea.
A proposta curatorial busca ir além do resgate histórico. Ao reunir essas obras, põe em diálogo diferentes perspectivas regionais e temporais, conectando-as às urgências do presente. Nesse percurso, as fabulações revelam outras camadas narrativas, convocando questões sobre conflitos de terra, identidade, gênero e raça, ampliando as possibilidades interpretativas.
Assim, nas aproximações com os conceitos do pesquisador Gilmar de Carvalho deixados no livro Madeira Matriz, a exposição se ancora no conceito de matriz enquanto núcleo vivo e dinâmico de tradições culturais. Para Carvalho, a matriz simboliza o ponto de origem que une manifestações diversas — uma base que, embora carregada de memória, dialoga com o novo e se reinventa. Xilogravuras, cordéis e esculturas, por exemplo, expressam essa continuidade cultural que se refaz em múltiplos contextos, preservando a essência enquanto se transforma.
Fabulações Matriciais convida o público a ampliar essas interconexões, destacando a madeira como matéria-prima que transcende temporalidades e geografias. Nesse movimento, a exposição celebra a madeira não apenas como suporte físico, mas como superfície-matriz de linguagens e imaginários, que nos abre espaço para a fabulação, os delírios e as urgências que atravessam o aqui e agora.
SERVIÇO
Exposição Fabulações Matriciais
Espaço Cultural Arte Sesc (Rua Marquês de Abrantes, 99, Flamengo)
Visitação: Segunda a sábado, das 12h às 19h
Entrada gratuita
CURADORIA
Jean Carlos Azuos
Marcelo Campos
AGATHA MARIA
Evoca símbolos e narrativas que entrelaçam resistência e ancestralidade. As onças personificam a força das travestis brasileiras, enquanto a cobra representa o tempo de Exu nas encruzilhadas, marcando ciclos e transformações. Inspirada pelas Marias, pombagiras e encantadas da esquerda, a obra celebra as potências que emergem nas ruas, espaços de luta e eternidade. Entre os lastros visuais das gravuras surgem profanações de vida, as fúrias, prosperidades e sonhos de futuros mais dignos. Envelhecer, gargalhar e criar apesar do trauma tornam-se gestos de vingança e afirmação, transformando a existência em ato contínuo de resistência e reinvenção.
ANDERSON BORBA
As esculturas de Anderson Borba revelam uma força experimental que converte o material em narrativa. Transitando entre o orgânico e o geométrico, suas formas dialogam com o espaço, a memória e a ancestralidade. Trabalhando com madeira, metal e outros elementos, Borba explora texturas, volumes e superfícies que ora preservam o aspecto bruto, ora exibem intervenções delicadas e lapidadas. Suas esculturas são grandes encontros com as diversas materialidades, e assim, despertam o olhar e o tato, convidando o espectador a refletir sobre processos de construção e efemeridade. Em sua criação, emerge uma tensão constante entre equilíbrio e instabilidade, evidenciando a plasticidade das formas e a riqueza das relações e dos contornos entre gesto e matéria.
BÁRBARA WAGNER E BENJAMIN DE BURCA
A xilogravura Fala da Terra, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, foi feita a partir da pesquisa dos artistas com o Coletivo Banzeiros, grupo de teatro, oriundo do Movimento dos Sem Terra (MST) para a produção de um filme de 2022. A região pesquisada é o sudeste do estado do Pará, onde aconteceu o massacre de Eldorado dos Carajás. A peça que dá origem ao filme é uma fábula criada por Guillermo Maldonado Perez, um autor colombiano, e mostra a luta pelo direito à terra e à moradia. Com isso, personagens descendentes dos povos originários, afrodiaspóricos e camponeses se misturam, na gravura, em uma configuração épica, como muitas que a arte brasileira produziu, porém, marcada pela diferença das origens sociais das personagens que distanciam-se dos heróis engalanados da República, por exemplo. Talvez, intentemos, na observação da gravura, um motim, um levante, uma guerra. Interessa à imagem, então, a pergunta: quais corpos estão em luta? O MST é o principal movimento social da América Latina.
COLEÇÃO ARTE SESC DE XILOGRAVURA
A xilogravura no Brasil mantém uma forte conexão com a tradição popular do cordel, enquanto também dialoga com influências externas, como as obras de Oswaldo Goeldi e Lívio Abramo, que abriram espaço para o modernismo formal, integrando questões sociais em suas práticas. Por outro lado, a gravura foi um território fértil para o abstracionismo, oferecendo plena liberdade para a experimentação artística. A gestualidade informal, historicamente pouco valorizada na arte brasileira, encontrou na gravura um campo único de expressão. Na Coleção Arte Sesc de xilogravura, essa diversidade ganha forma, revelando encontros anacrônicos entre tradição e modernidade, figuração e abstração, técnica e autenticidade.
GILVAN SAMICO
Gilvan Samico foi um mestre da xilogravura, conhecido por criar mundos inventados que transitam entre o real e o mítico. Suas obras habitam um universo de símbolos e narrativas, onde seres armoriais — híbridos de humano, animal e fantasia — emergem como protagonistas. Inspirado pela cultura nordestina e pelo Movimento Armorial, liderado por Ariano Suassuna, Samico transformava a madeira em portais para histórias ancestrais, mesclando o imaginário popular com referências míticas e universais. Sua técnica refinada e seu traço detalhista revelam não só uma habilidade extraordinária, mas também uma visão única, onde o passado dialoga com o atemporal. Em seus mundos, o épico e o poético coexistem, perpetuando a memória cultural do nordeste brasileiro.
FRANCISCO DE ALMEIDA
O artista transforma a gravura em um território poético e inovador, ancorado na memória dos ofícios artesanais que marcaram sua infância: filho de ourives, mãe bordadeira e neto de rendeira, ele traduz a delicadeza do fazer manual em criações que rompem limites. Formado em xilogravura com Sebastião de Paula, incorpora experimentações como a sobreposição de matrizes e elementos revisitados, criando composições densas e multifacetadas. Sua obra mescla religiosidade, paisagens oníricas e referências indígenas e afro-brasileiras, que conformam altares alegóricos que unem história, sonho e um olhar carnavalizado. A xilogravura se torna, em suas mãos, uma linguagem atemporal que ressignifica memórias e multiplica narrativas.
JOSÉ LOURENÇO
José Lourenço é parte integrante da Lira Nordestina, a mais antiga gráfica de cordel do Brasil, localizada em Juazeiro do Norte – CE. Inicialmente denominada Tipografia São Francisco, tem seu nome alterado por sugestão do poeta Patativa do Assaré. Na Lira, encontramos um coletivo de artistas que, hoje, se integram às atividades da Universidade Regional do Cariri. José Lourenço mantém sua produção em xilogravura, onde o imaginário regional é atualizado em constante movimento com o passado. O Romance do Pavão Misterioso, rapisódia de João Melquíades Ferreira, publicado em 1923, se tornou uma das narrativas mais recorrentes nos cordelistas da Lira Nordestina. Ali, a fabulação atua no imaginário que envolve personagens, condes e condessas, um romance proibido, que voam pelo mundo montados em um pavão, quase como na ideia de um tapete mágico, partindo da Grécia para o Oriente.
LIRA NORDESTINA
A Lira Nordestina, em Juazeiro do Norte, Ceará, é chão e raiz da xilogravura brasileira, onde a madeira inscreve histórias e o imaginário nordestino se traduz através da força das imagens e das narrativas. Fundada em 1932, no fervilhar das feiras de cordel, tornou-se o coração da arte popular gráfica, sendo frequentada por grandes mestres como Mestre Noza, Stênio Diniz e João Pedro de Andrade. Com goivas e martelos, esculpiram nas matrizes de madeira as vidas, as lutas, a fé e os sonhos de um povo. Mais que um espaço de ofício, a Lira é terreiro de memória e resistência, onde o passado e o presente se enredam em cada traço. Suas matrizes carregam a densidade das vivências e o sopro do tempo, espiralado pelas gerações. Hoje, a Lira Nordestina mantém viva a continuidade da prática da xilogravura, sendo uma referência nacional, onde a tradição dialoga com novos caminhos, reafirmando sua relevância no cenário cultural do Brasil.
MANOEL RIBEIRO DA COSTA - MUDINHO DA RASA
Uma das mais importantes tradições da escultura brasileira traz a madeira como matriz. São artistas que vivenciam as tradições dos santeiros vinculadas ao catolicismo, outros que estão mais próximos à vida ribeirinha, se apropriando das madeiras de balsas e embarcações, e outros mais que aliam-se aos vínculos afrorreligiosos. Assim, por todo Brasil, a escultura em madeira permanece do barroco ao contemporâneo. Manoel Ribeiro da Costa, oriundo de Búzios, região praieira do Rio, coletava as madeiras da região e as transformava em santos, bestiários e figuras antropomórficas. Mantinha, quase sempre, a verticalidade dos troncos encontrados, o que conferia às peças certa relação totêmica.
MIRIAM INEZ DA SILVA
A produção artística de Miriam Inez se tornou singular por apresentar, ao mesmo tempo, uma linguagem que se aproximava de um viés popular, mas que comentava acontecimentos situados no presente. Oriunda de Goiás, Miriam Inez muda-se para o Rio de Janeiro e frequenta o ateliê de Ivan Serpa. Com isso, a experiência da gravura se coaduna à sua produção pictórica. Na série aqui apresentada o surreal, o fabular, o futurista e o onírico caminham lado a lado. Miriam, por sua vez, se encantava pelos folhetins televisivos. Viveu uma geração que acompanhou os festivais da canção, o desbunde do tropicalismo. Ainda assim, a artista se manteve atenta aos usos formais que a caracterizaram pela complexa figuração festiva, psicodélica sempre sobre fundos brancos.
THIAGO MODESTO
As gravuras de Thiago Modesto nos convidam a olhar o cotidiano com outra lente, revelando as sutilezas do trabalho e da vida familiar. Elas falam da relação íntima entre o esforço invisível do trabalho e os laços que unem as pessoas no espaço familiar, mostrando como o simples e o comum carregam profundos significados. Suas obras traduzem, de forma sensível e provocativa, o valor da memória, da resistência e da continuidade das histórias. Modesto nos mostra que, no ordinário, há uma beleza silenciosa, que se revela através dos gestos e das marcas do tempo, capaz de revelar a profundidade das experiências e a força dos gestos diários que moldam as muitas vivências.
XILOPRETURA
Xilopretura, gravurista de força e originalidade, utiliza a madeira como uma matriz-mãe que carrega a memória de sua ancestralidade. Suas obras são um encontro entre o sagrado e o cotidiano, onde o gesto de esculpir se conecta com as raízes do povo negro e suas histórias de resistência. Em suas gravuras, figuras femininas, símbolos espirituais e ecos de tradições ancestrais se entrelaçam, criando um espaço de afirmação e pertencimento. Cada traço, impresso na madeira, reverbera a luta, a celebração e a continuidade de um legado que se projeta para o futuro, reafirmando a força das raízes que sustentam a identidade e a cultura afrodiaspórica.

