Sobre
Um igarapé é um curso d’água estreito, geralmente cercado pela floresta. Um igarapé é um rio que ensina que existir é mover, desaguar e transformar. Diferente dos grandes rios, os igarapés possuem fluxo mais silencioso e íntimo, atravessando matas densas, conectando comunidades, cidades, alimentando ecossistemas e formando redes fundamentais para a vida. Um igarapé tem suas águas claras, barrentas ou escuras, refletindo a vegetação e o céu como espelhos naturais. Um igarapé é também um espaço de memória, circulação, espiritualidade e relação entre humanos, animais, plantas e ancestrais, mas também ruas, avenidas, comunidades, cidades e resistências. Da Amazônia à Mata Atlântica, o rios e os igarapés desenham caminhos silenciosos entre raízes, folhas e sombras, conduzindo as águas, memórias, linguagem e imaginação. Esta exposição emerge da tentativa de escutar esses fluxos: compreender o rio como uma relação, matéria sensível e força poética de vida.
De 30/06 a 30/11/2026
Entrada Gratuita
Arte Sesc
Rua Marquês de Abrantes, 99
Flamengo – Rio de Janeiro
A Exposição
A partir da restauração de seu acervo, o Sesc RJ propõe uma exposição que coloca essas peças em conversação com instalações de artistas convidados, cujas obras partilham de visualidades que conformam a produção da cultura latino-americana.
Desse diálogo, surge um espaço de encontro onde o gesto se afirma como expressão simbólica das relações culturais que constroem e reinventam a sociedade brasileira. Interessa-nos, assim, compor uma narrativa permeada por presenças estéticas de diferentes temporalidades e trajetórias.
A mostra se apresenta, portanto, como caminho incessante de reflexão os meandros das águas e escorre pelos fluxos da presença dos rios. Em diálogo com a poética de Alberto Caeiro e o pensamento de Nego Bispo, a mostra se organiza como um campo de fluxos, onde um rio corre por meio do movimento poético da confluência entre saberes, pessoas e temporalidades. Suas permanências, transformações e reinterpretações nos territórios.
Artistas
Fayga Ostrower
(1920, Lódz, Polônia)
Fayga Ostrower foi gravadora, pintora, desenhista, ilustradora, professora e uma das principais representantes da arte abstrata brasileira. Nascida na Polônia, refugiou-se no Brasil em 1934, onde desenvolveu uma obra marcada pelo rigor formal, pela experimentação da gravura e pela investigação das relações entre forma, espaço e percepção.
Sua formação em artes gráficas ocorreu na Fundação Getulio Vargas, onde estudou com mestres como Axl Leskoschek e Carlos Oswald. A partir da década de 1950, sua produção evoluiu do figurativismo para uma linguagem abstrata, caracterizada pelo rigor da composição, pela riqueza das texturas e pelo dinamismo das formas. A gravura tornou-se seu principal meio de expressão, embora também tenha produzido pinturas, aquarelas e desenhos.
Reconhecida internacionalmente, recebeu o Grande Prêmio Internacional de Gravura da Bienal de Veneza (1958) e conciliou uma intensa produção artística com uma destacada atuação como educadora e autora de livros fundamentais sobre criatividade e teoria da arte
Roland Urbinatis
(1947, Paris, França)
Roland Urbinati (Paris, França, 1947) é pintor de origem francesa. Formou-se em pintura e desenho na Escola Nacional Superior de Belas-Artes de Paris e complementou sua formação em importantes instituições artísticas europeias. Após anos de viagens por diferentes países, estabeleceu-se no Brasil na década de 1980, onde desenvolveu parte significativa de sua trajetória artística.
Sua produção é marcada pelo diálogo com o expressionismo abstrato, explorando intensamente a cor, a textura e a matéria. Em suas pinturas, superfícies densas e camadas de pigmentos criam atmosferas que evocam paisagens imaginárias e dimensões poéticas, convidando o espectador a múltiplas interpretações. Ao longo de sua carreira, participou de exposições em galerias e instituições culturais no Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades brasileiras, consolidando uma pesquisa pictórica voltada à experimentação formal e à expressividade da pintura.
Marcelo Valls
(1958, Rio de Janeiro, Brasil)
Marcelo Valls é artista plástico brasileiro que na sua pesquisa transita entre pintura, desenho e experimentação material, desenvolvendo uma linguagem abstrata marcada pelo diálogo entre geometria, cor e processos de oxidação de pigmentos. Suas obras investigam a relação entre superfície, tempo e matéria, produzindo composições que articulam rigor formal e sensibilidade poética.
Participou de exposições individuais e coletivas em galerias e espaços culturais, com destaque para mostras realizadas no Rio de Janeiro, Estudou Pintura com Katie Van Scherpenberg na escola de Artes Visuais do Parque Laje e participou de importantes exposições coletivas e individuais, com a proposta investigar a matéria da pintura em função do tempo (oxidação) da cor e da superposição das camadas, num trabalho de base construtiva informal de grande plasticidade e elegância.
Keila-Sankofa
(1985, Manaus, Amazonas, Brasil)
Artista visual e realizadora audiovisual que exerce a multidisciplinaridade em espaços institucionais, urbanos, além de festivais e mostras de cinema. Reconhecendo as encruzilhadas das cidades, das telas e dos espaços expositivos como territórios aptos para dialogarem em confluência. Sankofa, realiza instalações audiovisuais que exibem vídeos performance, fotos e filmes. Desenvolve pesquisas sobre memória de pessoas racializadas, utilizando a manipulação e a ficcionalização como um aparato laboratorial e imagético, operando através das técnicas de fotoperformance, autorretrato e obras audiovisuais diversas.
Indicada ao Prêmio PIPA 2021-2023-2024, residente na “A Diáspora Africana Lá e Aqui” parceria entre a Universidade de Stanford (USA) e o Instituto Sacatar (BA), residente na Artística Artlab x Amplify D.A.I (Brasil – Argentina), convidada para o 40o Arte Pará (PA), Um século de agora – Itaú Cultural (SP), Mulheres que mudaram 200 anos – Caixa Cultural, Festival MUTEK (Argentina e Montreal), Águas Abertas – Select 2026, selecionada para o 32o Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, além de Diretora artística do Projeto Direito à Memória. Possui obras nos acervos da Coleção Amazoniana de Arte da UFPA e Museu Nacional de Belas Artes.
Gestora do DaVárzea das Artes, membra da APAN – Associação dxs Profissionais do Audiovisual Negro e Nacional Trovoa.
Cildo Meireles
(1948, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil)
Cildo Meireles é artista visual e um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira. Sua produção abrange instalações, esculturas, objetos e intervenções que investigam as relações entre percepção, espaço, linguagem, política e economia.
Sua trajetória teve início em Brasília, onde estudou arte na Fundação Cultural do Distrito Federal. No final da década de 1960, aproximou-se das ideias do neoconcretismo brasileiro, dialogando com artistas como Hélio Oiticica e Lygia Clark, mas desenvolvendo uma linguagem própria, marcada pela experimentação espacial e pelo envolvimento sensorial do espectador
Desde a década de 1970, desenvolve obras que desafiam os limites entre arte e experiência, envolvendo o público em percursos sensoriais e reflexões sobre os sistemas sociais e culturais. Reconhecido internacionalmente, participou de importantes bienais e exposições em museus como a Tate Modern, em Londres, e o MoMA, em Nova York, consolidando uma trajetória fundamental para a arte conceitual contemporânea.
Caio Reisewitz
(1967, São Paulo, Brasil)
Caio Reisewitz tem uma trajetória de destaque na fotografia brasileira contemporânea, iniciada nos anos 1990. Utiliza câmeras de grande formato e tem como grande influência o trabalho de fotógrafos viajantes e pioneiros no Brasil no século 19, entre eles Marc Ferrez. A partir de 2009, passa a trabalhar também com colagens, criando intervenções nas imagens. A relação da arquitetura urbana com florestas tropicais vizinhas e o conflito entre natureza e o desenvolvimento de grandes cidades são alguns dos temas tratados em sua produção. Aparecem nas séries feitas na Casa das Canoas, de Oscar Niemeyer (2013), no Rio de Janeiro, e Butantã (2003), em São Paulo – ambas em regiões cercadas por mata atlântica – e no projeto Água escondida, comissionado pelo Instituto Moreira Salles em parceria com o Arq.Futuro, em que fotografou rios, nascentes e represas em diversas cidades em diferentes condições arquitetônicas.
Formado em Belas Artes pela Universidade de Mainz (Alemanha), possui especialização em Poéticas Visuais e mestrado pela Universidade de São Paulo. Participou da 26ª Bienal de São Paulo (2004) e da 51ª Bienal de Veneza (2005) e já expôs no International Center of Photography – ICP (2014) e na Maison Européenne de la Photographie (2015). Tem em obras em coleções como Cisneros Fontanals Art Foundation; Fundación ARCO Madrid; Collezione Fondazione Guastalla,
Itália; Fond National d’Art Contemporain, França; MUSAC; Museu de Arte Moderna de São Paulo, MAM–Rio e Museu de Arte Moderna de Salvador; Musée Malraux, França. Publicou os livros Parece verdade (Cosac Naify, 2010) e Água escondida (BEI, 2015).
Walid Raad
(1967, Chbaniyeh, Líbano)
Walid Raad transita entre a instalação, a performance, o vídeo e a fotografia para explorar como eventos históricos de violência física e psicológica afetam corpos, mentes, a cultura e a narrativa.
Ele é amplamente conhecido pelo *The Atlas Group*, um projeto de 14 anos sobre a história contemporânea do Líbano. A obra de Raad foi apresentada em inúmeras exposições internacionais, incluindo a Documenta 11 e 13, a 14ª Bienal de Istambul, a primeira Bienal de Viena, a Bienal do Whitney (2000 e 2002) e a 50ª Bienal de Veneza. Realizou exposições individuais no Hamburger Bahnhof (Berlim), no Museo Reina Sofía (Madri), na Whitechapel Art Gallery (Londres) e no Carré d’Art (Nîmes). Sua exposição retrospectiva de 2015 no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) percorreu o Institute of Contemporary Art de Boston e o Museo Jumex, na Cidade do México. Suas obras integram as coleções do Whitney Museum of American Art (Nova York), do Stedelijk Museum (Amsterdã), do Walker Art Center (Minneapolis), do Kunsthaus Zürich e do Centre Pompidou (Paris), entre outras.
Katie Van Scherpenberg
(1940, São Paulo, Brasil)
Mildrid Catharina van Scherpenberg passou a infância na Inglaterra e vem com a família para o Brasil em 1946. Tem aulas de pintura com Catherina Baratelli, no Rio de Janeiro, entre 1958 e 1960. Em 1961, viaja para a Europa, faz curso na Academia de Belas Artes da Universidade de Munique, na Alemanha.
Em 1963, estuda com o pintor Oscar Kokoschka (1886 – 1980) em Salzburg, Áustria. Retorna para o Rio de Janeiro, e realiza curso de gravura no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAM/RJ, entre 1966 e 1967. Em 1976, participa da fundação da Associação Brasileira de Artistas Plásticas Profissionais – Abapp. Cria, em 1978, ao lado da poeta Geni Marcondes (1916), o Núcleo Experimental de Arte na cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro, no qual leciona até 1984. Começa a expor individualmente nos anos 1980.
A convite do Instituto Nacional de Artes Plásticas, trabalha no projeto Melhoria de Materiais – análise de tinta a óleo, de 1982 até 1985, quando a pesquisa é publicada pela Funarte. De 1983 a 1989, leciona pintura no MAM/RJ, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage-EAV/Parque Lage e na Universidade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro. Realiza pinturas abstratas desde a década de 1980, utilizando materiais e pigmentos não convencionais, como óxido de ferro.
Felipe Varanda
(1975, Rio de Janeiro, Brasil)
Felipe Varanda é um fotógrafo, jornalista e artista visual brasileiro, nascido e radicado no Rio de Janeiro. Atua profissionalmente com fotografia desde 1998, quando iniciou sua carreira como fotojornalista nos jornais Jornal do Brasil e Folha de S.Paulo. Posteriormente, passou a desenvolver uma produção autoral voltada à fotografia contemporânea, ao vídeo e a intervenções urbanas.
Um de seus projetos mais conhecidos é “Arqueologia de Futuras Ruínas”, desenvolvido ao longo de cerca de dez anos na região portuária do Rio de Janeiro durante o processo de revitalização urbana. A série foi apresentada no Museu Histórico Nacional, em 2015.
Em 2008, recebeu o Prêmio Oi Futuro de Interferências Urbanas pela instalação fotográfica Transposição do Rio Carioca. Também realizou a exposição individual Vestígios (2016) e participou de diversas mostras coletivas e edições do festival FotoRio, um dos principais eventos dedicados à fotografia no Brasil.
A Exposição “Ygarapé – Caminhos das Águas” faz parte da programação pré Festival Sesc de Inverno 2026, que em sua 24ª edição, escolhe afluir.
Afluir é movimento. É encontro. É a força dos rios que se cruzam, compartilham caminhos e transformam a paisagem por onde passam.

